4 de setembro de 2026
Quais motivos influenciaram para que o BPI vendesse sua participação estratégica e lucrativa no BFA e abandonar o mercado angolano?

O Banco BPI foi pressionado e aconselhado a sair de Angola devido a regras de supervisão e limites de exposição a grandes riscos impostos pelo Banco Central Europeu (BCE).
A exigência do regulador europeu, que começou a ser desenhada a partir de 2014, baseou-se nos seguintes fatores principais:
Falta de equivalência de supervisão: O BCE determinou que as regras de supervisão bancária em Angola não eram equivalentes às da União Europeia. Por esse motivo, os ativos e fundos investidos em dívida soberana angolana ou em bancos locais (como o BFA) passaram a ser contabilizados com um nível de risco muito mais elevado.
Risco de concentração (Grandes Riscos): O BPI detinha uma percentagem considerável do Banco de Fomento Angola (BFA), o que gerava um peso desproporcional no balanço do banco português. Perante as novas regras europeias, essa forte exposição a um mercado considerado de alto risco ultrapassava os limites regulamentares permitidos pelo BCE para a estabilidade do sistema financeiro europeu.
Alteração de controlo acionista: Com a compra do BPI pelo grupo espanhol CaixaBank, a urgência em cumprir rigorosamente os rácios exigidos por Frankfurt aumentou significativamente, acelerando o plano de redução de presença no mercado angolano.
Após mais de uma década de pressões e de reduções faseadas do seu peso no BFA, o BPI fechou um acordo em setembro de 2026 para alienar a sua posição restante de 33,35% ao Grupo Carrinho, concluindo o seu processo de saída de Angola.
O processo de saída do Banco BPI de Angola estendeu-se por vários anos e estruturou-se através de reduções sucessivas de capital, culminando recentemente numa venda final milionária.
Abaixo detalha-se o histórico de transações e a forma como o balanço do banco português absorveu os impactos financeiros.
📌 Histórico do processo de Venda de Ações ao Longo dos Anos
O investimento original do BPI em Angola remonta à década de 1990 através do Banco Fomento Exterior. A redução estratégica da sua presença realizou-se em três etapas fundamentais:
2008 – Venda Inicial à Unitel: Numa fase em que o mercado angolano estava em forte expansão, o BPI vendeu 49,9% do capital social do BFA à operadora angolana Unitel por cerca de 366 milhões de euros, mantendo o controlo maioritário com 50,1%.
2017 – Perda do Controlo Operacional: Pressionado diretamente pelo Banco Central Europeu (BCE) por razões de risco regulamentar, o BPI reduziu a sua posição ao alienar mais 2% das ações do BFA à Unitel por 28 milhões de euros. Com este passo, o BPI deixou de deter o controlo maioritário (passando para 48,1%) e a Unitel assumiu o comando do banco angolano.
2025 – Entrada do BFA em Bolsa (IPO): No âmbito da estratégia de dispersão de capital impulsionada pelo governo angolano, o BPI aproveitou a dispersão de ações em bolsa para vender 14,75% do banco, gerando um encaixe financeiro de 103 milhões de euros. A sua posição residual fixou-se em 33,35%.
2026 – Desinvestimento Total: Em setembro de 2026, o BPI fechou definitivamente o ciclo em Angola ao vender os restantes 33,35% ao Grupo Carrinho (através da holding Congolian Financial).
🔎 Quem é o Grupo Carrinho e o seu papel na banca em Angola?
O Grupo Carrinho é o maior conglomerado agroalimentar e agroindustrial de Angola. Sediado em Benguela e liderado por Nelson Carrinho, o grupo expandiu agressivamente o seu modelo de negócio nos últimos anos, transitando da gestão de cadeias de abastecimento alimentar para o setor financeiro.
Com a recente aquisição dos 33,35% do BFA que pertenciam ao BPI, o Grupo Carrinho posiciona-se como o maior conglomerado bancário privado de capitais puramente angolanos. Atualmente, o seu ecossistema financeiro inclui:
Banco de Comércio e Indústria (BCI): Adquirido ao Estado angolano em 2021 no âmbito do programa de privatizações (PROPRIV). O grupo detém cerca de 74% do capital.
Banco Keve: Instituição financeira onde o grupo também garantiu uma posição acionista relevante.
Banco de Fomento Angola (BFA): Ao comprar a tranche final do BPI através da holding Congolian Financial, o grupo passa a ser o segundo maior acionista do banco mais rentável do país, ficando apenas atrás da Unitel.
O papel crescente e o risco sistémico:
A estratégia do Grupo Carrinho visa criar um circuito fechado de autofinanciamento. Ao controlar bancos, indústrias e a corretora Prospectum, o grupo ganha a capacidade de captar poupanças do público e canalizá-las diretamente para os seus megaprojetos agrícolas e logísticos. Analistas de mercado apontam que este crescimento cria um "peso sistémico" considerável em Angola, gerando desafios acrescidos para a supervisão do Banco Nacional de Angola (BNA) devido aos riscos de concentração de crédito.