6 de agosto de 2026
Portugueses descobrem o poder do M&A e vão às compras de forma agressiva

Durante décadas, o mercado de fusões e aquisições em Portugal contou uma história de assimetria. Empresas nacionais, bancos, operadores de telecomunicações, industriais e retalhistas, eram alvos preferenciais de investidores estrangeiros. O capital entrava, consolidava e, muitas vezes, saía com os ativos de maior valor. Em 2025 e no primeiro semestre de 2026, o guião mudou. Grupos portugueses passaram a competir de igual para igual por ativos internacionais de elevada qualidade, com tecnologias proprietárias, patentes de relevância mundial e posições estratégicas em mercados maduros e de elevado crescimento.
Os dados confirmam a inversão. Em 2025, a atividade outbound portuguesa manteve-se robusta, com centenas de transações e valores agregados na casa dos milhares de milhões de euros. Espanha continuou a ser o destino principal, seguida pelos Estados Unidos e pelo Brasil. No primeiro trimestre de 2026, empresas portuguesas já registavam dezenas de aquisições no exterior, em setores que vão da saúde digital à automóvel, passando por energia, construção e retalho especializado. O que antes era exceção "um grupo português a disputar um ativo disputado no estrangeiro está tornar-se tendência.
O CASO VISABEIRA: e sua aproximação em gigantes como SpaceX e a Blue Origin
O caso mais emblemático da nova postura agressiva chegou em agosto de 2026. A Nearing Visabeira, braço de energia e telecomunicações do Grupo Visabeira, anunciou a aquisição da norte-americana Carter Electric, sediada na Flórida. A empresa de instalações elétricas tem como clientes a SpaceX, de Elon Musk, e a Blue Origin, de Jeff Bezos. Com receitas previstas superiores a 50 milhões de dólares em 2026 e mais de 300 colaboradores, a Carter Electric integra-se na plataforma já composta pela Sargent Electric, JF Edwards Construction e Verità.
O impacto é imediato: as operações da Nearing Visabeira nos EUA ultrapassam os mil milhões de dólares de receitas anuais e o volume de negócios global do grupo aproxima-se dos 2,5 mil milhões de euros. O Grupo Visabeira, que faturou 2,7 mil milhões de euros em 2025 e emprega cerca de 18 mil pessoas em 17 países, já tinha reforçado a presença americana e europeia com várias aquisições nos últimos cinco anos. A compra da Carter Electric não é apenas uma expansão geográfica; é a conquista de um posicionamento em infraestruturas críticas para a nova economia espacial e energética.
A Visabeira também se movimentou no mercado doméstico, entrando no capital da Martifer e consolidando posições estratégicas, mas é no exterior que a agressividade se torna mais visível.
O CASO SONAE: consolidação internacional e escala em retalho e imobiliário
A Sonae tem sido um dos principais protagonistas desta viragem. Em 2024, o grupo liderou a aquisição de cerca de 80% da finlandesa Musti Group, líder nórdica de retalho de produtos e serviços para animais de estimação, num investimento na ordem dos 700 milhões de euros. A operação uma das maiores da história da Sonae abriu as portas aos mercados nórdicos e bálticos e permitiu, em dezembro de 2025, a integração da portuguesa ZU sob a plataforma Musti, criando um grupo com vendas agregadas próximas de 470 milhões de euros e presença em sete países.
No imobiliário, a Sonae Sierra acelerou. Em 2025, adquiriu a divisão de Real Estate Management da Unibail-Rodamco-Westfield na Alemanha, tornando-se o segundo maior gestor de centros comerciais de terceiros naquele país. Já em julho de 2026, formou uma joint venture com o Norges Bank Investment Management para adquirir um portefólio de oito centros comerciais em Espanha, com valor bruto aproximado de 1,5 mil milhões de euros. A Sierra ficou com 8% (investimento de cerca de 120 milhões de euros) e assumiu a gestão do portefólio, além de adquirir a plataforma de gestão associada. As vendas internacionais da Sonae superaram os 2,3 mil milhões de euros em 2025 (mais de 20% do total do grupo), com mais de mil lojas fora de Portugal.
OUTROS CASOS: Saúde digital, automóvel e materiais avançados
Outros grupos portugueses seguiram o mesmo caminho. A Sword Health, uma das unicorns portuguesas de maior sucesso, comprou em janeiro de 2026 a Kaia Health por 285 milhões de dólares. A operação reforça a plataforma de AI Care da Sword nos Estados Unidos e abre o mercado alemão, onde a Kaia já opera no sistema de reembolso de saúde digital que cobre mais de 70 milhões de pessoas. A aquisição traz tecnologia de visão computacional e terapêuticas digitais para condições musculoesqueléticas e pulmonares, ativos de elevado valor intelectual e escalabilidade global.
No setor automóvel, a Salvador Caetano concretizou em janeiro de 2026 a aquisição do Grupo Cedar, um dos maiores distribuidores e retalhistas da Irlanda, com volume de negócios próximo de mil milhões de euros, cerca de 28 mil viaturas comercializadas e mais de 600 colaboradores. A operação marca a entrada direta no mercado irlandês e alinha-se com a estratégia de expansão europeia do grupo de Gaia. Fontes do setor estimaram o valor do negócio em torno de 100 milhões de euros.
Na indústria de materiais avançados, a Altri adquiriu em 2025 uma participação maioritária (cerca de 59%) na suíça AeoniQ, empresa de yarn celulósico biodegradável e climate-positive destinado a substituir poliéster e nylon. O investimento inclui a construção da primeira unidade industrial à escala comercial nas instalações da Altri em Caima (Constância), com capacidade inicial de 1.750 toneladas por ano a partir de 2026. A AeoniQ conta com co-investidores como Hugo Boss e MAS Holdings e direitos de distribuição exclusivos da The Lycra Company um ativo tecnológico com patentes e potencial de transformação da cadeia têxtil mundial.
De alvos a compradores: a mudança de paradigma
A comparação com o passado recente é clara. Nos anos seguintes à crise financeira e à intervenção da troika, o fluxo dominante era inbound: estrangeiros compravam ativos portugueses em dificuldades ou em privatizações. Hoje, os investidores portugueses disputam os mesmos ativos de qualidade elevada que antes estavam reservados a fundos e grupos de maior dimensão. Tecnologias proprietárias, patentes, redes de distribuição consolidadas e posicionamentos em setores de futuro (saúde digital, energia, mobilidade, materiais sustentáveis e retalho especializado) passaram a estar ao alcance de grupos nacionais capitalizados e com ambição internacional.
Esta agressividade não é aleatória. Resulta de balanços mais sólidos, de uma geração de gestores com experiência global e de uma estratégia deliberada de diversificação geográfica e setorial. Os grupos portugueses deixaram de ser meros “sellers” e passaram a atuar como “buyers” sofisticados, capazes de estruturar operações complexas, competir em leilões internacionais e integrar ativos de elevado valor acrescentado.
O movimento ainda é relativamente recente e o volume total de outbound continua inferior ao inbound em muitos períodos. Mas a qualidade das aquisições e a recorrência das operações apontam para uma mudança estrutural. Os portugueses descobriram o poder do M&A — e estão a usá-lo para jogar no mesmo tabuleiro onde antes apenas assistiam.