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10 de agosto de 2026

ISABEL DOS SANTOS: A maior estratéga em M&A de Angola

ISABEL DOS SANTOS: A maior estratéga em M&A de Angola

Isabel dos Santos utilizou o M&A (fusões e aquisições) de forma estratégica e acelerada para construir um império internacional em cerca de uma década (aproximadamente 2006–2016), concentrando-se em Portugal como plataforma privilegiada de entrada em mercados europeus. Em vez de fundar empresas do zero na Europa, ela adquiriu participações relevantes (e frequentemente de controlo) em companhias já estabelecidas, usando holdings offshore, parcerias com empresas estatais angolanas (Sonangol, Sodiam/ENDE) e financiamento via dividendos de negócios angolanos (especialmente Unitel) ou empréstimos de bancos portugueses e estruturas complexas. Isso permitiu-lhe tornar-se um player relevante em setores-chave portugueses, energia, telecomunicações, banca e engenharia, com investimentos estimados em mais de mil milhões de euros em menos de dez anos.

A estratégia assenta em padrões repetidos revelados por investigações como os Luanda Leaks (ICIJ, 2020): uso de veículos em jurisdições de baixa transparência (Holanda, Malta, Suíça, Madeira, Luxemburgo); entrada via participações minoritárias que depois eram reforçadas; alavancagem de relações políticas e empresariais em Angola e Portugal; e aproveitamento de crises ou reestruturações (ex.: pós-crise financeira de 2008 em Portugal) para comprar a preços ou condições favoráveis. Muitas operações envolveram financiamento indireto de recursos públicos angolanos ou de empresas estatais, gerando dividendos elevados que alimentavam novas aquisições. O resultado foi um portfólio de mais de 400 empresas e subsidiárias em dezenas de países, com Portugal como segundo maior foco (depois de Angola).

Principais aquisições e operações em Portugal (o núcleo da expansão internacional)

Portugal funcionou como “segundo país” de negócios. Isabel dos Santos entrou em setores estratégicos através de holdings como Kento/Jadeium (depois Unitel International Holdings BV, Holanda), Santoro Finance, Esperaza Holding BV, Winterfell e outras.

  • Galp Energia (energia/petróleo, a partir de 2005/2006): Uma das primeiras e mais valiosas. Em parceria com o empresário português Américo Amorim e a Sonangol, via Amorim Energia e Esperaza Holding (Holanda; Sonangol 60%, veículos ligados a Isabel/Sindika Dokolo 40%). A Amorim Energia adquiriu cerca de 33,3% da Galp. A participação indireta de Isabel (estimada em torno de 6–7%) tornou-se um dos ativos mais rentáveis, gerando centenas de milhões em dividendos ao longo dos anos. A entrada foi estruturada de forma vantajosa, com empréstimos e condições favoráveis ligadas à Sonangol.

  • Banca (BPI, BFA, BIC/EuroBic, a partir de 2008): Em 2008, via Unitel, adquiriu 49,9% do Banco de Fomento Angola (BFA) ao BPI. Pouco depois, comprou cerca de 10% do próprio BPI (depois reforçada para cerca de 18–20% via Santoro), tornando-se acionista relevante e influente. Mais tarde, participações no Banco BIC (Angola e Portugal), que evoluiu para EuroBic, onde chegou a deter cerca de 42,5% (vendida anos depois ao Abanca). Estas operações deram-lhe acesso a redes financeiras portuguesas e angolanas e geraram dividendos e mais-valias (ex.: venda da posição no BPI na OPA do CaixaBank).

  • Telecomunicações e media (ZON → NOS, a partir de 2009): Começou com 10% da ZON Multimédia (ex-PT Multimédia) em 2009 via Kento (investimento inicial na ordem dos 160–180 milhões de euros, parcialmente financiado por bancos portugueses como a CGD). Em 2012, reforçou para cerca de 28,8% (maior acionista individual), usando empréstimos da Unitel (centenas de milhões de euros). Em 2012–2013, impulsiona e concretiza a fusão ZON + Optimus (Sonaecom), criando a NOS. Através da ZOPT (parceria paritária com a Sonae), controlou mais de 50% da NOS, tornando-se um dos principais players do setor em Portugal. Tentou ainda, em 2014, uma OPA sobre a PT SGPS (não bem-sucedida). Dividendos da NOS e da Unitel alimentaram a expansão.

  • Efacec Power Solutions (engenharia/energia, 2015): Aquisição de cerca de 65–67% por aproximadamente 200–220 milhões de euros/dólares via Winterfell (Malta), em parceria com a estatal angolana ENDE. A Efacec (transformadores, subestações, engenharia, presença internacional) estava em dificuldades financeiras; a operação foi financiada com reestruturação de dívida junto de bancos portugueses. Foi o último grande negócio em Portugal antes da viragem política em Angola.

Outras participações e interesses em Portugal incluíram imobiliário de luxo em Lisboa, empresas na Zona Franca da Madeira e vínculos com retalho/media (ex.: ZAP). Em menos de dez anos, Isabel passou de investidora quase desconhecida no mercado português a acionista de referência em algumas das maiores empresas cotadas e industriais do país, com influência em conselhos de administração e capacidade de negociar fusões e estratégias.

Aquisições e interesses na Europa e outros mercados

Além de Portugal, a expansão europeia e internacional apoiou-se em estruturas semelhantes e no marido Sindika Dokolo:

  • de Grisogono (joalharia de luxo suíça, Genebra, 2012): Caso paradigmático de M&A com apoio estatal angolano. Sodiam (braço comercial de diamantes do Estado angolano) e veículos de Dokolo (Melbourne Investments, Victoria Holding/Victoria Limited em Malta) adquiriram controlo maioritário (cerca de 75–95% em estruturas sucessivas) da joalharia em dificuldades. O investimento estatal angolano foi substancial (dezenas a mais de 100 milhões de dólares/euros ao longo do tempo, incluindo empréstimos e injeções), enquanto a participação e gestão de Dokolo/Isabel foram favorecidas. A marca tinha lojas internacionais e foi usada para promover diamantes angolanos (ex.: diamante de 404 quilates). Isabel negou ser acionista direta, mas documentos ligam-na como beneficiária económica. A empresa acabou em falência em 2020 e foi posteriormente adquirida por investidores do Dubai.

  • Outros na Europa e além: Holdings e subsidiárias em Holanda, Malta, Luxemburgo, Suíça, Espanha, Reino Unido e outros. Interesses em telecomunicações em Cabo Verde (T+/Unitel T+) e São Tomé e Príncipe (Unitel STP), via Unitel International. Imobiliário de alto valor em Londres, Lisboa, Mónaco e Dubai. Rede de mais de 400 entidades em 41 países, incluindo muitos offshore. Em Angola, a base (Unitel 25% via Vidatel, Nova Cimangola, bancos, retalho Candando, etc.) gerava o cash flow para as aquisições externas.

Como o M&A acelerou o crescimento e a relevância

A velocidade (de quase zero presença europeia relevante em 2005 para player em setores estratégicos portugueses por volta de 2013–2015) deveu-se a:

  • Alavancagem de recursos e relações angolanas: Dividendos massivos da Unitel (milhares de milhões ao longo dos anos), empréstimos de estatais e acesso privilegiado a ativos.

  • Estruturas complexas e facilitadores: Advogados, consultoras e bancos ocidentais/portugueses ajudaram a estruturar holdings, proteger ativos e negociar.

  • Parcerias estratégicas: Com elites portuguesas (Amorim, Sonae) e estatais angolanas, diluindo riscos e abrindo portas.

  • Timing e oportunidades: Crise financeira portuguesa, reestruturações de empresas e privatizações/parcializações.

  • Foco em ativos geradores de caixa e influência: Empresas cotadas ou estratégicas que davam dividendos, know-how e legitimidade internacional.

Este modelo permitiu crescimento rápido sem a necessidade de construir operações do zero na Europa, mas gerou controvérsia intensa após a mudança de poder em Angola (2017). Muitos ativos em Portugal e Angola foram congelados, apreendidos ou nacionalizados (ex.: Efacec), e posições foram vendidas ou diluídas (EuroBic, NOS). Isabel dos Santos e associados enfrentam processos e acusações de desvio de fundos públicos, que ela contesta como perseguição política.