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22 de setembro de 2026

Imigrantes enviam 18 vezes mais dinheiro de Angola do que a diáspora devolve: o desequilíbrio que pressiona as reservas cambiais em Angola

Imigrantes enviam 18 vezes mais dinheiro de Angola do que a diáspora devolve: o desequilíbrio que pressiona as reservas cambiais em Angola

Por cada dólar que a diáspora angolana envia para o país, saem cerca de 18 dólares em transferências de imigrantes para o exterior. Os dados do primeiro trimestre de 2026, calculados pelo Economia & Mercado com base em informações do Banco Nacional de Angola (BNA), confirmam um padrão estrutural que se arrasta há anos e continua a drenar divisas da economia nacional.

As saídas de capital caíram 11% face ao mesmo período de 2025, de 66 milhões para 58,8 milhões de dólares. Ainda assim, superaram em 18,4 vezes os apenas 3,2 milhões de dólares enviados pelos angolanos no exterior (um crescimento de 19,6% face aos 2,7 milhões do ano anterior). O saldo líquido negativo foi de 55,6 milhões de dólares num único trimestre.

Quem envia e para onde

Os portugueses a trabalhar em Angola continuam a dominar de forma esmagadora as transferências para o exterior: 43,7 milhões de dólares, ou 74,4% do total. Seguem-se os chineses (4,5 milhões, 7,6%) e os vietnamitas (1,7 milhões, 2,9%).

No sentido inverso, a maior contribuição veio dos angolanos residentes em Portugal (0,7 milhões de dólares, 23,1% do total captado), seguidos pelos dos Estados Unidos (0,6 milhões, 17%) e do Reino Unido (0,3 milhões, 8,4%).

Um problema que se arrasta há décadas

O desequilíbrio não é novo. Em 2024, os imigrantes enviaram cerca de 246,6 milhões de dólares para o exterior (queda de 43% face a 2023), enquanto a diáspora angolana devolveu apenas 14 milhões — o valor mais alto desde 2014, mas ainda residual. O défice da balança de remessas e transferências pessoais rondou os 232,6 milhões de dólares.

Em 2025, as remessas enviadas através de instituições financeiras não bancárias caíram 36,6%, para 19,17 milhões de dólares. Especialistas apontam as comissões elevadas das plataformas oficiais como principal causa: muitos clientes migraram para canais informais e digitais, fora do radar do BNA. As entradas também recuaram, de 16,75 milhões em 2024 para 14,02 milhões.

Pressão sobre as reservas e resposta do BNA

Em maio de 2026, o BNA reduziu o limite anual de transferências para o exterior por particulares de 250 mil para 150 mil dólares. A medida, justificada pela necessidade de mitigar efeitos de tensões geopolíticas internacionais, reflecte a preocupação com a estabilidade do kwanza e a preservação das reservas internacionais (estimadas entre 13 e 15 mil milhões de dólares, equivalentes a seis a oito meses de importações).

O impacto recai sobretudo sobre famílias com filhos a estudar no estrangeiro ou que dependem de tratamentos médicos fora do país. As restantes regras cambiais mantêm-se, mas o sinal é claro: o banco central está mais cauteloso com a saída de divisas.

Angola no último lugar em África

O contraste com o resto do continente é gritante. Em 2025, as remessas para África atingiram 124,2 mil milhões de dólares (crescimento de 86% numa década). Egito, Nigéria e Marrocos lideram. Angola, porém, regista cerca de 83 dólares per capita em remessas de emigrantes — o valor mais baixo entre 48 países africanos analisados pelo Banco Africano de Desenvolvimento. Na Nigéria o valor ultrapassa os 10 mil dólares; no Quénia e no Senegal situa-se entre 5 e 9 mil.

Analistas e editoriais recentes, como o do Valor Económico, sublinham que as remessas africanas estão a tornar-se uma das fontes mais estáveis de financiamento externo (cerca de três vezes menos voláteis que o investimento directo estrangeiro). Projecções apontam para fluxos superiores a 1 bilião de dólares até 2050. Angola, no entanto, permanece à margem por ausência de uma estratégia consistente de mobilização da diáspora.

O que falta

Ao contrário de economias emergentes onde as remessas sustentam o consumo familiar e a estabilidade financeira, Angola ainda não conseguiu converter a sua comunidade no exterior — especialmente a numerosa diáspora em Portugal (estimada em mais de 600 mil pessoas) — numa fonte estrutural de divisas. Falta enquadramento institucional, incentivos à transferência formal e maior confiança nos canais oficiais.

Enquanto isso, o fluxo de saída de rendimentos de trabalhadores estrangeiros (especialmente portugueses e chineses) continua a pressionar a liquidez de divisas e as reservas do sistema bancário. O primeiro trimestre de 2026 mostra que, mesmo com alguma melhoria nas entradas e queda nas saídas, o desequilíbrio de 18 para 1 permanece intacto — e exige respostas de política económica mais ambiciosas.