18 de agosto de 2026
Como as marcas automóveis da China estão a driblar as taxas europeias utilizando o M&A como estratégia de mercado, fazendo da Espanha sua porta de entrada

As marcas de automóveis chinesas estão a consolidar uma ofensiva industrial e comercial em Espanha, apostando em fusões, joint ventures e aquisições ou transferências de capacidade produtiva para contornar as tarifas da União Europeia sobre veículos elétricos fabricados na China. O país ibérico transformou-se no principal hub europeu destas operações, com projetos que envolvem plantas históricas e a revitalização de marcas espanholas.
Segundo dados do setor, as marcas de origem chinesa já representam cerca de 14% a 15% do mercado espanhol de veículos novos em 2026, superando a média europeia. Operam mais de 25 a 30 marcas chinesas ou de capital chinês, lideradas por grupos como SAIC (MG), BYD, Chery (Omoda, Jaecoo e Ebro) e Geely. A estratégia combina crescimento comercial agressivo com produção local para evitar tarifas compensatórias e cumprir requisitos de conteúdo europeu.
Principais operações em curso
Chery e Ebro (EV Motors)
A joint venture na antiga fábrica da Nissan na Zona Franca de Barcelona, tem a espanhola Ebro/EV Motors com 60% e a Chery com 40%. A fábrica já monta modelos da marca espanhola revitalizada Ebro (com tecnologia Chery) e está a avançar para produção de Omoda e Jaecoo. O objetivo é atingir volumes significativos (meta histórica de até 150 mil unidades anuais a médio prazo). A operação reativou emprego e posiciona a Chery como um dos primeiros fabricantes chineses com produção consolidada em solo espanhol.
SAIC (MG) em Galicia
O grupo estatal SAIC, proprietário da MG (uma das marcas chinesas mais vendidas em Espanha e Europa), anunciou a sua primeira fábrica europeia no Porto Exterior de Ferrol. Investimento inicial de cerca de 200 milhões de euros, capacidade prevista de 120 mil veículos/ano a partir de 2028 e criação de milhares de empregos diretos e indiretos. A localização portuária facilita exportações, nomeadamente para o Reino Unido. O projeto visa produção de híbridos e elétricos sob a lógica “in Europe, for Europe”.
Leapmotor e Stellantis
A Stellantis (que detém cerca de 21% da Leapmotor e 51% na joint venture Leapmotor International) está a aprofundar a parceria. A planta de Figueruelas em Zaragoza, produz o Leapmotor B10 e receberá um SUV elétrico conjunto sob a marca Opel. A fábrica de Villaverde em Madrid, com cerca de 1.500 trabalhadores e cujo Citroën C4 termina produção, deverá ver a propriedade transferida para a filial espanhola da Leapmotor International, com produção de modelos Leapmotor a partir de 2028. A operação ajuda a salvaguardar cerca de 6.000 empregos nas duas instalações espanholas e inclui compras conjuntas de componentes.
Geely e Ford em Valência
A Geely (dona de Volvo, Polestar, Lotus, Zeekr e Lynk & Co) fechou uma joint venture na planta da Ford em Valência. A Ford fica com 66% e a Geely com 34%. A partir de 2028 serão produzidos modelos elétricos da Geely e veículos multi-energia da Ford, aproveitando capacidade ociosa da fábrica. A operação permite à Geely localizar produção e partilhar custos e plataformas.
BAIC/Dongfeng e Santana em Jaén
A marca histórica espanhola Santana foi revitalizada em Linares (Jaén) através de parcerias com grupos chineses (incluindo BAIC e ligações a Dongfeng). Está a montar pick-ups e veículos todo-o-terreno (como o Santana 400) com tecnologia chinesa, com planos de aumentar o conteúdo local.
Entendendo o contexto e motivações estratégicas
A ofensiva responde às tarifas elevadas da UE sobre elétricos chineses e à necessidade de cumprir regras de “made in Europe” para aceder a incentivos e evitar barreiras. Espanha oferece infraestruturas existentes (plantas subutilizadas após reestruturações de fabricantes ocidentais), custos laborais e energéticos competitivos face a outros países europeus, mão-de-obra qualificada, rede de fornecedores e apoio público (incluindo o PERTE VEC). O Governo espanhol tem facilitado estes investimentos, vendo-os como forma de preservar emprego industrial e atrair capital.
Analistas do setor apontam que a produção local permite às marcas chinesas competir em preço e equipamento com fabricantes europeus, japoneses e coreanos, ao mesmo tempo que revitaliza instalações e marcas espanholas (Ebro e Santana). Em paralelo, a rede de concessionários chineses cresceu rapidamente, superando centenas de pontos de venda.
Impacto e perspetivas
Estas operações configuram uma onda de M&A e alianças estratégicas que está a redesenhar o mapa industrial automóvel espanhol. Espanha surge como a principal porta de entrada chinesa na Europa para produção, à frente de alternativas na Europa de Leste ou outros países. Projetos adicionais (incluindo potenciais de BYD, Changan ou outros) continuam em análise.
Para o mercado de fusões e aquisições, o fenómeno ilustra a tendência de “asset-light” ou aproveitamento de capacidade ociosa por parte de grupos chineses, combinada com joint ventures que equilibram controlo local e tecnologia asiática. O sucesso destes projetos dependerá da integração de fornecedores europeus, cumprimento de prazos e aceitação dos consumidores face à crescente oferta de veículos “made in Spain” com ADN chinês.
A dinâmica confirma que a transição energética e as barreiras comerciais estão a acelerar a reconfiguração global da indústria automóvel, com Espanha no centro da estratégia chinesa no continente.